2. ENTREVISTA 25.9.13

GREGRIO DUVIVIER - "NEM TODO HUMOR  VLIDO"
O humorista do Porta dos Fundos, grupo festejado at pelo "The New York Times", defende a piada responsvel e conta por que eles no querem ir para a tev 
por Tamara Menezes 

SUCESSO - As esquetes do grupo alcanam dois milhes de visualizaes em uma semana

O grupo Porta dos Fundos comeou como uma brincadeira entre amigos e virou um dos empreendimentos mais bem-sucedidos da internet em menos de um ano. Eles costumam lanar oito esquetes por ms  cada uma alcana dois milhes de cliques em apenas uma semana  e conseguem mais repercusso do que programas de tev. No total, somam 450 milhes de visualizaes. Recentemente, foram notcia at no jornal americano The New York Times. A publicao falava do sucesso do canal deles no YouTube, que apresenta um dos crescimentos mais rpidos do mundo. O grupo tambm lanou o livro Porta dos Fundos (Sextante), com tiragem inicial de 50 mil exemplares, e vai lanar um filme em 2014.

Um dos responsveis por esse fenmeno que renovou o humor brasileiro  o carioca Gregrio Duvivier, 27 anos, roteirista e ator. Nosso humor  diferente. Se  o futuro, no sei dizer. Duvivier estreou na carreira de humorista em 2003, em ZE  Zenas Emprovisadas, comdia que chegou a ter trs sesses por dia, e est atualmente em turn com outra pea, Uma Noite na Lua, que lhe rendeu o prmio de melhor ator da Associao dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro este ano. As esquetes da trupe s vezes causam polmica. A ltima foi com o deputado pastor Marco Feliciano (PSC-SP), que exortou seus seguidores do Twitter a tentar tir-la do ar por suas referncias  religio.

"No acho o vdeo (Oh, meu Deus) ofensivo. Os vdeos do deputado Marco Feliciano so muito mais ofensivos. Aquilo, sim, deveria ser crime

Faz-se pouco humor poltico no Brasil. O Casseta & Planeta fazia muito bem. Quero fazer, no ano que vem, debates com polticos no YouTube"

Isto - Vdeos recentes envolvendo religio e poltica provocaram a reao do deputado Marco Feliciano (PSC-SP). Qual  o objetivo do Porta dos Fundos com essas polmicas? 

Gregrio Duvivier - O objetivo no , em momento algum, a polmica. Nosso objetivo  sempre fazer rir. No acho o vdeo Oh, meu Deus ofensivo. Acho, ao contrrio, os vdeos do deputado disponveis no YouTube muito mais ofensivos. Aquilo, sim, deveria ser crime.  

Isto - Vocs tm preconceito em relao aos evanglicos?  

Gregrio Duvivier - Preconceito nenhum. O vdeo em questo, inclusive, no tem nada a ver com evanglicos, j que eles no adoram imagens. O vdeo est rindo de um hbito catlico, o de adorar imagens em lugares insuspeitos. Mas o pastor vestiu a carapua, talvez por ignorncia, talvez por m-f, talvez pela combinao de ambas, que  o que o define.  

Isto - Considera que o Porta dos Fundos faz um humor novo no Brasil? 

Gregrio Duvivier - O (escritor Luis Fernando) Verissimo tem uma teoria de que o humor brasileiro veio se despindo dos maneirismos. Primeiro era a cultura da peruca, do cara vestido de mulher, fazendo a graa da drag queen. Depois teve a graa do caipira, como o (Amcio) Mazzaropi (1912-1981). O humor foi tirando o dente de mentira, o chapu... Foi se despindo dos artifcios cmicos para fazer um humor mais realista, baseado em relaes verdadeiras. O tom do Porta dos Fundos  esse, quase dramtico. As pessoas no atuam uma oitava acima como antigamente. Na comdia, tudo era gritado. O melhor humor  o mais verdadeiro. 

Isto - O que no tem graa? 

Gregrio Duvivier - O que menos tem graa  pensar demais. A graa vem da ao espontnea, verdadeira, que vem da intuio mais do que da razo. No gosto muito do humor racional, da piada que se explica, mas sim daquele que brota de forma sincera. A improvisao, para mim,  a melhor escola para o ator. Ela ensina a lidar com tudo, inclusive com o texto. A grande regra da improvisao  que a verdade  engraada.  

Isto - Esse tipo de humor escandaloso ainda se v em programas de tev, como o Zorra Total, da Rede Globo. Essa  a comdia em crise? 

Gregrio Duvivier - Ele ainda  hegemnico, no s no Zorra Total, mas de um modo geral na tev. Minha impresso  de que existe uma mudana de pensamento em relao ao humor que se traduz na programao televisiva e tambm no cinema. Quando era pequeno, eu amava Um Convidado Bem Trapalho (1968), do Peter Sellers. Outro dia assisti e achei que perdeu a graa. Parece um filme lento. O tempo da minha gerao  muito mais rpido. Seria pretensioso dizer que o que a gente faz  uma revoluo ou um novo humor. No acho que todo humor vai ser assim. O legal  a diversificao.  um humor diferente. Se  o futuro, no sei dizer. 

Isto - Uma caracterstica do humor do Porta dos Fundos  procurar rir do mais forte. De onde vem isso? 

Gregrio Duvivier - Acho o riso responsvel muito importante. O humor est sempre rindo de algum. S tem graa assim. Talvez o melhor humor seja aquele que ri de si mesmo, mas tradicionalmente o humor ri da minoria. Piada de portugus, racista. No acho que todo humor  vlido. Sou a favor de um humor que ria da maioria. Fizemos uma esquete sobre a Ku Klux Klan. Rimos do absurdo de um grupo se reunir porque acha que  superior a outro. Sobretudo em temas espinhosos, como poltica e racismo, a gente tem que se posicionar. Sou contra aquela posio de  s uma piada, como dizem alguns humoristas. Ao dizer isso, est esvaziando a prpria profisso. Acho que existe uma responsabilidade muito grande em fazer as pessoas rirem.  

Isto - Voc se acha engraado? 

Gregrio Duvivier - No. Eu sou engraado sem querer. Na primeira vez que subi no palco, no Teatro Tablado, com nove anos, eu era o menor da turma. Todos eram mais velhos e eu era baixinho, tinha voz aguda de criana. As pessoas comearam a rir do meu ridculo. Ainda assim, foi uma experincia to prazerosa que eu nunca mais sa do Tablado, fui l todos os dias da minha vida at os 19 anos.  

Isto - De onde vem o nome Porta dos Fundos? 

Gregrio Duvivier - Nos juntvamos para falar besteira at altas horas, fazer mmica, coisas bem bobas. Numa dessas vezes, o Ian SBF (um dos idealizadores do programa) no conseguiu fazer uma mmica para porta dos fundos e isso virou uma piada nossa. Quando pensamos em criar uma produtora de filmes para a internet, ficou esse nome. Coincidentemente, porta dos fundos tambm tem um conceito. Ns no estamos entrando pela porta da frente, que seria o caminho tradicional, da televiso, do cinema. A gente est abrindo uma outra portinha, que  a internet. 

Isto - Como  o processo de criao da produtora? 

Gregrio Duvivier - O segredo do Porta dos Fundos  jogar fora a maioria das ideias. Somos quatro roteiristas e cada um traz dois roteiros escritos por semana, que so lidos por todos. Desses, a gente escolhe dois, no mximo trs. Uma vez por semana nos encontramos e escolhemos. Cada um escreve sozinho. A gente debate e exercita o desapego.Tambm exercitamos muito a reescrita. Outros reescrevem at que fique bom. Temos um cuidado grande com o texto. 

Isto - Como so esses encontros? 

Gregrio Duvivier - So muito srios.  trabalho. Em geral,  noite. Envolve horas de discusso, entra na madrugada. Eventualmente, rola uma cerveja. Mas nada mais. A gente  bem careta. Somos totalmente nerds. Tanto  que estamos na internet, foi l que a gente se sentiu em casa mesmo.

Isto - Qual  a diferena entre estar na internet ou no palco?  

Gregrio Duvivier - Estar no palco  parecido, porque h liberdade total e relao direta com o pblico, que  o que nos alimenta. No momento em que lanamos o vdeo, temos 200 mil visualizaes. Ao longo do dia, bate 700 mil e chega a 2 milhes em uma semana. As pessoas esperam e comentam. 

Isto - O que muda se o trabalho for na televiso e no cinema? 

Gregrio Duvivier - Mudam os filtros, os intermedirios. No Porta dos Fundos, a gente no pergunta a ningum, ns somos nossos chefes. Esse  o grande barato: produzimos contedo sem filtros. 

Isto - Pensam em migrar para a tev? 

Gregrio Duvivier - No. A internet j cumpre tudo o que a gente quer. Temos um pblico muito fiel, que no queremos abandonar. A diferena do Porta dos Fundos para outros produtos  que fazemos humor para internet e ponto final. No encaramos a internet como um trampolim para outro espao.  

Isto - O humor de vocs d dinheiro? 

Gregrio Duvivier - Hoje somos uma produtora de 35 funcionrios. O dinheiro vem de duas fontes. Uma so as parcerias com empresas, que eventualmente fazem campanhas com a gente. Outra  a parceria com o YouTube, que pe anncios antes dos vdeos. Hoje so eles que do mais dinheiro.  

Isto - Voc tambm  muito atuante no Twitter. Encara isso como trabalho? 

Gregrio Duvivier - Adoro o Twitter como ferramenta de interao com o pblico.  um contato direto e sem filtros.  um espao de pesquisa, no  trabalho. No tem obrigao e no pode criar dependncia. Voc tem que usar as redes sociais sem deixar que elas te usem.  muito importante no usar por um tempo.  

Isto - A internet foi importante para mobilizar as pessoas para as manifestaes de rua. O que considera mais importante nesse processo? 

Gregrio Duvivier - Um amigo disse que quem no est confuso, no est bem informado. Fui a uma passeata no Rio de Janeiro para entender mais do que para protestar. E o que entendi foi que a violncia policial era gigantesca, um exagero no uso de gs lacrimogneo. Acho que o essencial dessas manifestaes  instaurar o medo numa classe sem vergonha, que  a dos polticos.  

Isto - Poltica pode ser engraada? 

Gregrio Duvivier - Sim. Faz-se pouco humor poltico no Brasil. O Casseta & Planeta fazia muito bem, depois foi ficando menos poltico. Acho que o pblico brasileiro tem a rejeio como reflexo da nossa cultura. A minha gerao no tinha interesse por poltica. Talvez isso agora tenha mudado. Ter ido s ruas j fez diferena e vai fazer a longo prazo. S no pode morrer nas eleies de 2014. Quero muito fazer, no ano que vem, debates com polticos no YouTube, com humor. E no s de cargos executivos, mas tambm com deputados. Ns temos a funo de divulgar ou contestar para as pessoas conhecerem mais em quem elas votam. Quero fazer debates eleitorais com humor no ano que vem. 

Isto - Desgasta trabalhar com a sua namorada, Clarice Falco (atriz e cantora que atua nos vdeos do Porta dos Fundos)? 

Gregrio Duvivier - A gente est muito junto, mas nos fins de semana cada um vai para um lugar. Eu viajo com a pea e ela vai fazer show (acaba de lanar o CD Monomania). Temos nossos momentos de distncia e de trabalho juntos. Lazer e trabalho esto muito identificados para a gente. No tem desgaste porque no consideramos o trabalho uma coisa penosa.

